segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Casos de paralisia facial parcial são um choque para os atingidos


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Há 15 dias, Emivan foi se olhar no espelho e tomou um susto gigantesco: metade do rosto estava paralisada. Hoje, faz fisioterapia intensiva para tentar recuperar os músculos da face (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )
Há 15 dias, Emivan foi se olhar no espelho e tomou um susto gigantesco: metade do rosto estava paralisada. Hoje, faz fisioterapia intensiva para tentar recuperar os músculos da face
Há pouco mais de 15 dias, o corretor de imóveis Emivan Ramos de Souza, 32 anos, levou um grande susto ao olhar no espelho e perceber que o rosto estava desfigurado. A boca se mostrava completamente desviada para um lado, um dos olhos não fechava e metade da testa não respondia a comando algum. O único sintoma anormal sentido por Emivan momentos antes de constatar que quase 50% da face estava paralisada foi uma sensação de dormência na porção afetada, além de um estranho ardor na vista, como se ele estivesse prestes a chorar. "Não sei o que aconteceu. Procurei socorro médico, mas ainda não recebi o resultado dos exames mais apurados. Os testes que poderiam detectar um problema vascular ou de coração não apontaram esse tipo de descompensação. Ainda estou confuso e abalado. Tenho medo de não voltar ao normal", admite.

Tudo indica que o corretor tenha sido vítima da paralisia facial periférica (PFP), um distúrbio de causas diversas que atinge a musculatura da face. Dependendo do grau, uma hemiface — metade do rosto — fica parcial ou completamente paralisada, perdendo temporariamente a sensibilidade dos músculos. Em casos muito raros e mais graves, os movimentos não são recuperados, mas, em 90% das ocorrências, a cura total pode ser alcançada.

Embora mais comum na quarta década de vida, a PFP pode atingir até adolescentes. A doença não escolhe sexo, não dá avisos e é limitante. O susto e o desespero são naturais, porque o distúrbio abala a pessoa tanto física quanto emocionalmente. "Além da questão estética, há comprometimento da funcionalidade da boca e dos olhos. Às vezes, é preciso se afastar do trabalho, porque a fala e a mastigação são comprometidas. O paciente sente-se constrangido em sair de casa", explica a fisioterapeuta Marina Berti. Foi o que ocorreu com Emivan. "Trabalho com o público. Meus clientes ficariam assustados ao me ver. Nos primeiros dias, mal consegui me alimentar ou falar com clareza", relata.

O nervo facial não é apenas uma estrutura motora que possibilita os movimentos do rosto. A inervação dessa região é também sensitiva e, quando afetada, altera o paladar e a própria sensibilidade. A neurocirurgiã do Hospital Brasília Valéria de Araújo explica que é comum as vítimas da PFP imaginarem que a manifestação seja sintoma ou sequela de um acidente vascular cerebral. "O exame clínico é importante para o diagnóstico diferencial. A paralisia facial decorrente de AVC (1)é central e normalmente desvia a boca, mas a testa e os olhos são preservados", observa. De qualquer forma, testes específicos, como tomografia computadorizada e ressonância magnética de crânio, devem ser conduzidos para investigar a causa do problema. "Fisiologicamente, é como se o nervo tivesse desligado. Por isso, quanto mais precoce o diagnóstico e tratamento, melhor a chance de recuperação completa, que ocorre na maioria dos casos", diz.

Prognóstico ruim
Cerca de 70% das paralisias faciais são periféricas. A PFP pode ser provocada por trauma decorrente de pancadas ou perfurações no rosto, infecções no nervo facial ou no ouvido, lesões pós-cirúrgicas, diabetes e até estresse, no caso daqueles que já têm a predisposição para o distúrbio. Entre 50% e 70% dos casos, no entanto, a mazela não está relacionada a tais transtornos. O otorrinolaringologista do Hospital de Base do Distrito Federal André Sampaio adianta que, até pouquíssimo tempo atrás, quando o nervo facial sofria o "desligamento" e a raiz do transtorno não era encontrada, a PFP era identificada como idiopática ou paralisia de Bell. "Hoje, já sabemos que a paralisia de Bell é resultado da ação de um vírus que atinge o gânglio geniculado, estrutura relacionada ao ouvido. Nesse caso, o tratamento é feito com corticosteroides e antivirais", diz o especialista.

A intervenção cirúrgica é indicada apenas quando os medicamentos não resolvem o transtorno. "Vítimas de traumas ou tumores que comprometem o nervo facial podem precisar de cirurgia. Tenho um paciente que sofreu um acidente de moto e está prestes a ser operado. A pancada no rosto danificou o nervo de tal forma que não temos outra alternativa", acrescenta Sampaio. Estima-se que a incidência da PFP esteja entre 20 e 30 casos a cada 100 mil habitantes. O olho afetado deve receber cuidados especiais, porque a vista fica exposta ao ressecamento e a lesões na córnea. O uso de colírios lubrificantes e de tampões é recomendado até que a função motora seja restabelecida.

Quando bem acompanhado, o paciente se recupera em algumas semanas. Tanto neurologistas quanto otorrinolaringologistas são unânimes em afirmar que, seja qual for a causa da PFP, a fisioterapia é fundamental no processo de recuperação. O cirurgião plástico Alan Landecker, 37 anos, de São Paulo, é um exemplo. Atingido recentemente pela paralisia facial periférica, ele se recuperou em 20 dias, com o apoio de uma fisioterapeuta. "Foi de repente. O lado esquerdo da face perdeu a força. Meus olhos não fechavam, ardia muito e isso comprometeu completamente minha rotina profissional. Comecei a fisioterapia imediatamente e meu rosto voltou ao normal", conta.

Nas sessões de fisioterapia, são adotadas técnicas que aceleram a recuperação das funções muscular, ocular e mastigatória. Os fisioterapeutas trabalham com estímulos motores e sensitivos que auxiliam a recuperação da sensibilidade, uma queixa constante de pacientes com PFP. "Usamos também a drenagem linfática, para eliminar substâncias tóxicas na face, e exercícios de mímica facial", observa a fisioterapeuta Marina Berti. Ela reforça que o envolvimento de outros profissionais, como fonoaudiólogos e psicólogos, também pode ser necessário. "A PFP limita seriamente o dia a dia do paciente. Ela compromete o rosto, que é nosso cartão de apresentação. Isso traz, sem dúvida, abalo em todos os sentidos. A ajuda de uma equipe multidisciplinar aumenta as chances de recuperação total", garante.

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